Hans Staden
Hans Staden (1525-1579), participou de duas expedições ao Brasil como
artilheiro (arcabuzeiro), a primeira em navio português
e a segunda em navio espanhol. Viveu numerosas aventuras e vicissitudes, entre elas
a convivência por nove meses e meio com os indios antropófagos tupinambás, na
condição de prisioneiros destinado a ser devorado. Destas suas experiências
resultou o seu relato etnográfico do continente sul-americano recém descoberto
pelos europeus. A sua narrativa é uma das mais importantes obras sobre o início
da historia brasileira e divide-se em duas partes: A primeira com o título “As
viagens” descrevendo suas aventuras entre os indígenas, e a segunda com o
título “A Terra e seus habitantes”, um relatório sobre a vida e costumes dos
Tupinambás, dos quais foi prisioneiro. O seu livro, publicado em Marburgo no
ano de 1557, ricamente ilustrado com xilogravuras recebeu mais de cinqüenta
edições, em alemão, flamengo, holandês, latim, francês e português. A primeiro
edição brasileira ocorreu em 1892, na Revista Trimestral do Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro .
A primeira viagem
Em inicio de 1548, Hans Staden participou de uma expedição colonizadora
portuguesa ao Brasil. Partiu de Bremen para Portugal, onde embarcou rumo
ao Brasil. Aportou na capitania hereditária de Pernambuco em 28 de janeiro de
1548. Objetivos da expedição portuguesa eram a exploração do Pau-Brasil, o
combate aos franceses, aos indígenas revoltosos e a remessa de degredados
portugueses ao Brasil. Staden lutou ao lado dos portugueses contra indígenas e
franceses e retornou à Europa no mesmo ano.
A segunda viagem
Em 1549, Hans Staden embarcou em Sevilha na Espanha, rumo ao Rio de
la Plata. O navio naufragou em 1550 no litoral do Estado brasileiro de
Santa Catarina. O náufragos alcançaram terra firme e após dois anos de espera,
decidiram rumar para Assunção. Parte da tripulação foi por terra e a outra
embarcou em pequeno barco e rumaram para São Vicente, de onde embarcariam para
Assunção. Na altura de Itanhaém sofreram novo naufrágio, conseguindo se salvar
a nado. Assim foram a pé pela costa até São Vicente. Em Bertioga, próximo a São
Vicente, os portugueses haviam levantado um forte na ilha de Santo Amaro e
tendo tomado conhecimento de sua qualificação como artilheiro, convenceram Hans
Staden a assumir a responsabilidade de manter a guarda e vigília no forte
durante quatro meses. Ao final deste período foi solicitado a permanecer por
mais um período. Assim, combinaram sua permanência por mais dois anos.
Nomearam-no para condestável em abril de 1553.[2]
A captura de Hans Staden pelos
Tupinambás
Conforme relato do cacique Ipirú-guaçú ao prisioneiro Hans
Staden; os tupinambás tinham certa vez sido traídos quando subiram a bordo de
um navio portugues para comerciarem. Os portugueses os "assaltaram,
amarraram, conduziram e entregaram aos tupiniquins, pelos quais foram então
mortos e devorados" [3]
Como Hans Staden estava a serviço no forte de Bertioga, os Tupinambás
tomaram-no por português, tendo sido este o motivo de sua captura O
aprisionamento de Hans Staden pelos índios Tupinambás ocorreu em janeiro de
1554. Tendo-se afastado do forte para recolher caça providenciada por um índio
carijó que lhe servia, foi tocaiado na floresta, aprisionado e transportado por
vários dias em pirogas pelo mar até suas aldeias em Ubatuba.
A convivência com os
Tupinambás
Característica da personalidade de Hans Staden foi a serenidade para,
mesmo ameaçado continuamente a se tornar vitima de canibalismo, observar e
posteriormente evocar e registrar detalhadamente informações valiosas numa obra
que se tornou a fonte etnografica mais autorizada sobre o país e seus
habitantes.
Empenhou-se durante toda sua estada entre os indígenas a convence-los
que não era português e sim alemão. Como os Tupinambás eram amigos dos
franceses, procurou mostrar-lhes que estes também eram seus amigos. Dada sua
religiosidade, Hans Staden suplicava a proteção divina, o que chamava a atenção
dos índios e os induziu a exigir-lhe que rogasse proteção em situações de
perigo, ou a prever o desfecho de algumas investidas. Tanto a dúvida referente
à sua nacionalidade quanto a crença nos poderes de suas orações fez com que a
sua morte fosse pouco a pouco postergada. Após a Segunda Guerra Mundial surgiu no Brasil uma
interpretação antropológica moderna dos motivos pelos quais os índios teriam
poupado Staden: Seria a covardia do prisioneiro que os teria feito desistir de
devorá-lo. Esta interpretação revela-se equivocada ao confrontada com a
iniciativa aventureira de Staden em participar de duas expedições ao Novo
Mundo, com a sua atividade de artilheiro, com a sua participação em lutas no
Brasil e com o fato de ter sido o único (devido ao perigo desta função) a
assumir a vigília do forte de Bertioga. A tentativa de distorcer a narrativa e
pregar-lhe a pecha de covarde constitui-se estratégia ideológica de esquerda
muitas vezes aliada ao sionismo, comum no pós-guerra, com o objetivo de macular a
imagem da nação que teve papel de destaque no combate ao comunismo
na história recente.
As tentativas de resgate
Durante sua permanência entre os nativos ocorreram várias tentativas de
livrar-se do cativeiro. A primeira tentativa ocorreu ainda durante a volta dos
Tupinambás à sua aldeia. O rapto tinha sido percebido e Tupiniquins e
portugueses partiram em perseguição, chegando à praia quando os Tupinambás mal
tinham se afastado por apenas “dois tiros de arcabuz’ em suas pirogas.
Iniciou-se uma escaramuça da qual os Tupinambás escaparam com apenas alguns
feridos.
A segunda tentativa ocorreu quando um francês que vivia nas
proximidades, veio à aldeia para verificar a pedido dos índios, se o capturado
era também francês. Verificando que não o era, orientou os índios a devorá-lo,
não obstante os pedidos de Staden para empenhar-se na sua soltura. Este francês
retornou posteriormente à aldeia, e nesta ocasião, Staden já com mais liberdade
de movimentação dentro da aldeia conseguiu esclarecer-lhe que não era português
e sim alemão. O francês retificou sua primeira declaração sobre o preso,
afirmando que fazia parte dos franceses. Porém a esta altura os índios só
concordaram em solta-lo em troca de um navio cheio de mercadorias. Prometeu-se
aos índios o envio deste navio na primeira oportunidade, até o que Staden
permaneceria entre eles.
Outra possibilidade de escape ocorreu quando os Tupiniquins realizaram
uma expedição guerreira contra os Tupinambás. Chegando em 25 canoas, atacaram
as aldeias dos Tupinambás, que porém se defenderam de tal modo que o ataque foi
abortado, frustrando as esperanças de liberdade de Staden.
Os portugueses posteriormente enviaram um navio para averiguar a
situação de Staden. Ancoraram próximo à aldeia e perguntaram pelo prisioneiro.
Receberam respostas incertas pelas quais poderiam deduzir a morte de Staden e
retiraram-se em seguida.
No quinto mês do cativeiro chegou um navio da ilha de São Vicente para
negociar a soltura de Staden, porém não o conseguiram. Posteriormente ainda
chegou um navio francês para comerciar algodão e pau brasil, mas não levaram
Staden consigo para não prejudicar o relacionamento e o comercio com os índios.
O resgate
Após os meses de convívio com os indígenas, Staden tinha deixado de ser
o preso a ser devorado. Os índigenas convenceram-se de que não era português.
Passaram a crer na possibilidade de ser francês. Atribuíam-lhe, devido a sua
religiosidade, o poder do contato com sua divindade, o que lhes parecia
conveniente para extrair proveito. Passou a ser útil para os indígenas e nas
diversas tentativas dos brancos em resgatá-lo atribuíram-lhe alto valor de
troca.
O resgate ocorreu quando atracou a nau francêsa Catherine de
Vetteville, cujo capitão, disposto a libertar Staden o acolheu em seu
navio. Embora o valor do resgate (alguns objetos no valor de "cinco
ducados") não era o exigido pelos indígenas, tiveram que aceitar a
liberação de Staden, por se encontrarem a bordo do navio em inferioridade
numérica.
Por fim, nove meses e meio após o início de sua aventura entre os
indígenas, zarpou do Rio de Janeiro em 31 de outubro de 1554 rumo à Europa, e
por volta de vinte de fevereiro de 1555 chegou à Honfleur na França.
Declinando ainda de um convite do capitão do navio para participar de mais uma
viagem em seu navio, zarpou para Dieppe.
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